segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

trajetos

Domingo, 8h46min34sec. Acordo com a voz da minha avó, achando que ainda estava sonhando. Não, não estava. Nem era um pesadelo, tenho que trabalhar. É, isso é um pesadelo. Acordar antes do meio dia, num domingo, pra trabalhar, dignifica qualquer cidadão ao paraíso, com direito as 72 virgens que são prometidas no mundo islâmico, apesar de toda a contradição de se trabalhar no dia “sagrado”. Contudo, isso transforma sua vida no inferno, e é da vida antes da morte que realmente interessa para as pessoas minimamente sensatas.

Ao realmente abrir os olhos vejo o retrato do Ugo Tognazzi que tomou minha madrugada na escrivaninha, ainda com toda a família B ao lado, o vovô 6B, mamãe órfã 4B e netinhos 2B e HB. O desenho ficou realmente bom, e, não sou nenhum pouco modesto. Ugo Tognazzi em vida fora ator, e um dos seus melhores filmes foi o Gaiola das Loucas. Você provavelmente deve ter assistido com o Robin Williams, não que eu não goste do Robin, mas há um abismo entre os dois, e o Ugo fica do lado positivo da expressão “abismo”, usada para separar duas coisas, acho que você sabe o que quero dizer. Somente então: banheiro.

Ah! Mijar! Mijar ao acordar é uma daquelas sensações íntimas que dependendo do seu estado de espírito se igualam ao nirvana, não que eu tenha alcançado o tal nirvana, mas acho que deve ser algo como mijar pela manhã, ou cagar fumando. Viro-me e continuo nas tarefas matinais de um cidadão ocidental.

Escutar os passarinhos cantando ao escovar os dentes é deprimente. Em geral quando acordo os passarinhos estão tirando uma soneca após o almoço, e só se escuta o barulho dos carros e trólebus típicos da avenida.

Dentes escovados: café da manhã. Uma atividade que me enoja, não pela filosofia de vagabundo que adoto, é que realmente não consigo ingerir nada ao acordar, principalmente quando são 9h01min28sec recém completados de um domingo ensolarado. Meu estomago se fecha, como uma ostra ao ser oprimida. Engulo esse momento guela abaixo, não exatamente o momento, não deve ser possível engolir tempo, mas sim o café da manhã, e este leva tempo.

Tendo que me vestir pego a roupa esticada na cadeira, a mesma de ontem a noite. Você deve me achar porco, sujo, nojento, e todos esses adjetivos que se referem ao oposto da limpeza, mas acho uma puta sacanagem ter que lavar uma muda a mais de roupa em função de uma ida à esquina para tomar uma cerveja com um amigo, tomando apenas 1h de suor. Portanto, reutilizei toda a vestimenta, e antes que me pergunte, sim, também a cueca.

Vestido, escovo os dentes novamente. Gosto de escovar os dentes, gosto do som da escova esfregando por dentro da boca, faço movimentos ritmados, como se estivesse tocando um instrumento qualquer de percussão. Lavo o rosto, e enxergo no espelho um tricerátops com sono.

Na porta, beijo na testa da avó. Escadas: degrau, degrau, degrau, 2º andar, degrau, degrau, degrau, 1º andar, degrau, degrau, degrau, térreo, porta, portão. Tchauzinho para a janela, atravessar rua. Ponto de ônibus, banco.

Ligo então o mp3 player, no modo aleatório. É impressionante como o modo aleatório tende a não ter nada de aleatório. 3 músicas seguidas do In Flames, com direito a repeteco de Sleeples Again (seria isso uma piada do destino? Não, não existem essas coisas). Gosto de In flames, mas gosto de imprevisibilidade musical. Aperto 19 vezes o botão next até cair numa música mais com a cara de “manhã maldita de domingo em que trabalho”, Deftones – Hole In The Earth. Refrão aéreo, com estrofes aéreas, eu estava aéreo.

Ônibus? Não, eles não existem, não num domingo de manhã. Existem pais de família levando a maldita família pra passear nos seus carros novo de pais de família, enquanto seus filhos fazem aquela cara de “estou com sono pois estava escondido jogando tíbia de madrugada”. Repare nas roupas desses pais e mães de família. Eles conseguem ter um espaço no guarda roupa única e exclusivamente para “roupas de passeios indesejados nos domingos pela manhã”. Tênis para corrida de alguma marca “sou classe média e quero aparecer”, shorts beje sempre no lugar certo da cintura (o que é totalmente desconfortável), camisas polo azul celeste ou laranja com um botão abotoado apenas, bonés cafona com velcro para fechar e óculos escuros de grau. Para a esposa existe a variação regata branca com top aparecendo por baixo.

Até que finalmente, depois de intermináveis 13 min de espera, um chifrudinho (é assim que chamo carinhosamente o ônibus elétrico 3360) aponta no horizonte. Faço sinal e ele para (incrível!). Porta, degrau, degrau, catraca, banco na janelinha. A vantagem do transporte público no domingo matinal é que sempre tem um bom lugar a sua espera. O máximo que pode acontecer é você encontrar algum conhecido teu voltando de algum evento social que levou a madrugada toda, envolvendo bebedeira, mulheres e diversão, o que te lembra que a sua vida social não faz parte do top 100 do seu bairro, sequer da sua rua.

No trajeto lembro que estava sem cigarros. Existe um bar ao lado do terminal onde desço, mas coicidentemente, no dia anterior havia comprado um maço lá, com a mesma roupa que estava usando agora. Será que o dono do buteco vai me reconhecer? Não sou um tipo assim comum... Ele deve pensar que sou porco, mas ele é dono de um buteco!!! O que fazer?! Depois de muito filosofar sobre o que pessoas completamente desimportantes pensariam a meu respeito decido descer um ponto antes de onde constumo, apenas para comprar cigarros em outro buteco, que assim como o anterior, não preza pela higiene e simpatia com seus consumidores. Em função disso tive que caminhar 2 quadras a mais, o que num domingo de manhã exige um puta esforço.

Cigarros comprados, ascendo o primeiro cigarro do dia. O primeiro cigarro do dia, você que é fumante deve me entender, é horrível, realmente horrível. Parece que ele abaixa sua pressão arterial, te deixa mal mesmo, tira seu estômago do lugar e o coloca de volta com a maior má vontade. Mas você tem uma dívida com ele, ele é o primeiro cigarro do dia, abre as portas pra todos os outros cigarros extremamente importantes, tais como o do depois do almoço, o de encontrar o chefe, o de quando o tempo não passa, entre tantos cigarros que servem de muleta para suportar um dia que teima em ser desnecessariamente cansativo. Na metade do cigarro percebo que o segundo ônibus que pego está se aproximando. Não jogo o cigarro fora de forma alguma, deixo o ônibus passar, senão o carma do primeiro cigarro do dia não se termina, e é postergado pro segundo cigarro do dia, isso me consumiu mais longos 27min de espera, rendendo o espaço pro segundo e terceiro cigarros do dia.

27 minutos passados, aponta a lotação. Porta, catraca, degrau, degrau, janelinha. O trajeto é pequeno, com bom humor pode ser feito a pé, o que você deve supor que, num domingo de manhã, não é uma situação comum. No próximo ponto sobe um daqueles adoráveis idosos, que como toda a pessoa experiente que viveu uma vida cheia de alegrias acha que não precisa acumular mais nenhum tipo de conhecimento e simplesmente não lida com aparatos eletro-eletrônicos feitos após 1978, o que dificulta certamente o simples ato de passar o cartão para embarque. O adorável senhor de 143 anos, bafo de múmia, e brilhantina nos cabelos irrita profundamente o motorista pois não consegue encostar seu cartão onde está escrito em caixa alta e cor vermelha ENCOSTE SEU CARTÂO AQUI PORRA!, não tenho certeza se o porra estava lá, mas faria sentido em ocasiões como esta. O fato animou a viagem, mas não tornou meu dia efetivamente mais alegre, pois era domingo de manhã e eu estava a caminho do trabalho.

Chego finalmente ao meu destino, meia quadra do meu trabalho, apenas uma atravessada de rua e eu estaria lá, bate uma dúvida e uma baita vontade de dar meia-volta e ir dormir, ou então me jogar em algum carro e forjar um acidente (o seguro cobre acidentes durante os trajetos de ida e volta do trabalho) contudo, eu não tenho tanta coragem assim. Chego, suspiro, fumo outro cigarro e passo o cartão. Em 8h serei livre novamente.

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