Quando Nietzche conclama a morte de Deus ele obviamente (e se faz necessário frisar esta situação) não faz menção a uma morte física de Deus, mas sim a sua morte enquanto conceito transcendental e sua superação pelo Homem. Deus aqui é a manifestação ocidental de um Uno, que se consolida com a civilização judaico-cristã. Seria muita pretensão do autor do presente ensaio, abordar a questão divina na civilização oriental, da qual não possuo nem repertório, nem vivência.
O problema na leitura da notória frase – Deus está morto - reporta a um conceito elaborado por Flusser, o conceito de programa. Flusser talvez nunca tenha pensado que, a partir de uma análise incisiva do comportamento e comunicação de sua época, estava elaborando conceitos que seriam realmente absorvidos por poucas pessoas (como por exemplo, os próprios programadores). Esta condição aparentemente óbvia beira a prepotência, mas é crucial tendo em vista o laconismo presente na grande maioria da população mundial. O programa, como previu Flusser, se tornou independente e “consome” homens para se expandir, como se o filme Matrix efetivamente funcionasse na vida “real”. O repertório do homem comum foi há tempos rebaixado, condenado a uma condição catártica que destarte prevê uma inércia intelectual cômoda. Essa inércia tão cômoda é vestígio de um sistema cristão de informação, um sistema em forma de pirâmide. Será que os filósofos e pensadores se deram conta somente dialogariam com eles próprios?
O sistema piramidal de comunicação humana, implantado pelo cristianismo, visa o não-dialogo, todas as respostas devem ser encontradas no vórtice divino. Todavia o atual sistema comunicativo é não-linear, em rede, e, portanto quebra com o vórtice, sem que haja um ponto de confluência único. Ora, pensando na construção de toda a civilização ocidental, baseada nos preceitos cristãos, outros valores caem por terra. Uma das grandes características do cristianismo é a culpa. A culpa determina todo um comportamento humano extremamente complexo. A culpa provém do pecado, de se fazer algo errado aos olhos de Deus, para tal ato a resposta divina é a punição. Essa punição por vezes é desproporcional, como por exemplo, a passagem “se seus olhos o levarem ao pecado arranque-os, é melhor ser cego que um pecador”, ou seja, o pecado do desejo o condenaria a cegueira durante o resto de sua vida. Essa culpa gera desconforto, o simples fato do ser humano constituir família é por sentir culpa de abandonar sua prole, o amor, numa análise extremamente cética é a transformação do afeto em culpa. Contudo o sistema de comunicação em rede se aproveita dos vestígios lineares para inibir a atividade intelectual do homem. É muito mais fácil perpetuar uma idéia, seja ela qual for, se seu receptor não possuir nenhum discernimento crítico.
Se para Flusser um dos motivos principais para a morte de Deus é Ele ser a imagem e semelhança do criador de Auschwitz, a culpa gerada e difundida no sistema cristão passa a ser questionada, e, portanto, o Homem poderia se “desvencilhar” da sensação de culpa por atos tão absurdos. Ou seja, não haveria mais critérios éticos nas atividades humanas. E também se faz necessário lembrar que Auschwitz foi concebida sob um discurso que pretendia uma amparação divina, uma vez que a raça ariana se considerava escolhida por Deus.
Por outro lado a semelhança entre Deus e Homem pode ser exacerbada. Inúmeras passagens bíblicas denotam certa perversão divina. Dois pontos amplamente debatidos são: O livro de Jó e a prova de fé de Abraão. Ambas as passagens tratam de uma prova de fé infligida por Deus a seus discípulos fiéis. Não cabe ao presente ensaio debater a intensidade das provações, entre outros pormenores, o que se questiona é: Qual o motivo que leva Deus a provar de forma tão cruel seus seguidores uma vez que ele (por ser onipresente, onisciente e onipotente) já saberia a conclusão dos fatos? A resposta comumente encontrada é que Deus o fez para mostrar aos homens a fé de seus seguidores e a recompensa pela mesma. Bem, se Deus faz questão de provar tal situação isso denota uma característica extremamente humana, o capricho. O capricho é uma característica atribuída aos homens, mas então pode ser considerada uma característica divina herdada pelos homens. É nessa relação não mais dialética entre características humanas e divinas que se encontra o espanto pelo caráter divino.
Agora o leitor pode estar se perguntando qual a ligação entre o divino e a igreja, entre o divino e a bíblia; bíblia e igreja não são invenções humanas? A cisão entre igreja, bíblia e Deus é um fato muito recente em termos históricos, e se fez justamente em função das atrocidades cometidas em nome de Deus por parte da igreja, e por conseqüência dessacralizando a bíblia. Essa concepção monoteísta só se firma com o cristianismo, que por sua vez se fundamenta pelos escritos presentes na bíblia, que acabam por gerar a igreja católica (a romana e posteriormente a ortodoxa). Mesmo com o protestantismo a concepção de Deus vinculada diretamente à igreja e bíblia não cessa; a verdade, o belo e o bom eram determinados pelas igrejas cristãs e fundamentados pela bíblia.
Outro ponto relevante se encontra no fato de que Igreja e Estado foram por muito tempo praticamente uma única instituição. A idéia de Estado laico só foi concebida com as repúblicas modernas. Com a queda das grandes monarquias (reinos, impérios, etc.), e, por conseguinte de governantes instituídos por Deus, que Estado e Igreja serão separados, e diversas guerras territoriais serão travadas. Guerras e genocídios fazem parte do comportamento humano por toda a sua existência, é só pensar em uma grande civilização que logo segue um enorme número de mortes em nome dela. O auge dessa característica auto-destrutiva humana se encontra na Segunda Guerra mundial. Perde-se a fé em Deus, por perder-se a fé no Homem. Perde-se a fé no conhecimento gerado pelo Homem. Se em algum ponto a ciência criada pelo Homem delimita divino e humano como territórios separados, mas não necessariamente em oposição, os fatos gerados pela aplicação da ciência em suas últimas conseqüências evocam a necessidade quase que irracional de um amparo divino. Então se tem que a existência de Deus antecede qualquer manifestação religiosa.
É justamente quando o conceito Deus não consegue mais conter a atividade e o comportamento humano, na igreja e fora dela, que se pensa em Deus independente da religião, e, também, se pensa na morte de Deus. Essa questão é de extrema importância, pois hoje é com extrema facilidade que Deus, religião e Igreja são vistos de forma dissociada, ao passo que toda a civilização ocidental foi construída sob os preceitos indissociáveis judaico-cristãos.
É a dissociação recente entre Deus e religião que garante sobrevida ao conceito Deus. Mais que qualquer pormenor levantado, a bíblia é um manual de conduta, e é isso que o Homem procura: regras determinadas, critérios, bom senso, para nortear suas atitudes. E, não obstante, o Homem encontra conforto na certeza de um Uno ao qual faz parte. É, por conseguinte, a força motriz para a crescente geração de novas religiões contemporâneas, cristãs ou não. Fica mais fácil ao Homem conceber que a humanidade falhou ao apreender Deus do que simplesmente eliminar o conceito divino em decorrência dos atos humanos. Fica mais fácil dizer-se que a bíblia não tem necessariamente mais validade uma vez que foi escrita por homens. É melhor tirar a responsabilidade de Deus e coloca-la sobre os ombros de pessoas que já morreram, e que, por conseguinte, não vão reclamar. Se Deus não faz mais parte de uma conjuntura violenta ele perde a carga negativa que lhe foi atribuída e, finalmente, se torna “livre”. A partir de então Deus se descola da religião, e da cultura humana mesmo tendo “criado” o Homem. É curioso que esse “descolamento” fora antecipado na própria bíblia, quando Jesus indaga “ó pai, porque me abandonaste?”.
O Homem esqueceu Auschwitz, por mais absurdo que isto pode parecer. As centenas de milhares de pessoas que foram mortas se tornaram dados para estatística. É só pensar que mesmo após Auschwitz o Homem foi capaz de destruir as Torres Gêmeas com todos os inocentes dentro (não sejamos ingênuos a ponto de achar que aquilo foi simplesmente um ato terrorista islâmico, portanto oriental somente). É impressionante como a violência faz parte do quotidiano atual, totalmente banalizada e acéptica. O entretenimento é capaz de gerar extremos catárticos violentos porno-feitichizados para todos os gostos; e novamente caímos na questão comunicativa: após coisas como bucake, snuff, filmes ultra-violentos, entre outras produções as quais não cabe ao autor julgar como boas ou más, mas que aos olhos da moral e bons costumes cristãs são condenáveis, onde está vértice Deus?
Na comunicação social em rede, torna-se ainda pior a questão da alienação já tão trabalhada durante o cristianismo. Tudo pode ser feito e tudo já está previsto. Sem um ponto de convergência único o Homem se perde com o livre arbítrio, portanto se reforça a necessidade da existência de Deus, agora não como vórtice de uma pirâmide comunicacional, mas sim como ponto de apoio humano confortável e irracional, alheio a todo o sistema, como se pertencesse à outra dimensão comunicativa. Este novo conceito de Deus é mais flexível e erudito, trazendo para si argumentos de novas correntes filosóficas e novas abordagens a fim de se tornar menos falho, mais acolhedor, e, ao mesmo tempo totalmente descompromissado. O relacionamento homossexual, a separação de casais, a violação do próprio corpo por motivos estéticos, entre outras coisas tão comuns e normais ao Homem, mas condenadas e deturpadas pela Igreja, passam a ser aceitas por Deus, uma vez que o conceito Deus se torna mutável e não segue necessariamente a bula bíblica. Reforça-se o fato de que o autor não julga as atividades humanas mencionadas, mas as coloca perante o possível julgamento histórico-cristão.
Essa nova concepção de Deus vai tomar como referência para a sua construção o conceito anterior mais próximo, o conceito cristão. Ele então flexibiliza e repercute questões positivas como o amor ao próximo e a vida após a morte e torna obscuro ou elimina questões negativas como a punição pelos pecados e o inferno. Se a violência humana é prova do da incapacidade de amor ao próximo, a culpa não é mais divina, mas sim humana, porque a semelhança entre Homem e Deus não existe como antes, tudo faz parte de um contexto que é preferivelmente inexplicável por preceito. Pode-se dizer que se criou um Deus pós-cristão, uma vez que ele se apropria de conceitos cristãos interessantes e se expande para outros horizontes os quais o conceito anterior de Deus não chegava, da mesma forma que perde toda a responsabilidade pelo que foi atribuído ao conceito de Deus anterior.
Chega-se à conclusão da intrínseca condição humana em se apoiar na existência de um ser superior para fundamentar a sua própria existência. Sua existência é independente de qualquer atrocidade que possa ser feita (e muitas vezes fundamentada pela necessidade de afastamento dessas atrocidades), por maior desenvolvimento que o conhecimento humano possa ter alcançado, tendo como maior expoente até então a idéia cristã de Deus; que ainda se encontra em atividade, se dissipando na cultura contemporânea. Numa relação arquetípica de herói e anti-herói, ego e alter-ego, se o Homem matar Deus ele mata a si próprio, pois perde seu interlocutor, perde sua referência, sua imagem espelhada tão narcisista. É cômodo Deus estar vivo, e, portanto Ele está.
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