quinta-feira, 25 de novembro de 2010

deus está vivo

O presente ensaio não é de maneira alguma neo-platônico. Aqui será debatido o conceito da morte de Deus, elaborado por Nietzche e retomado por Flusser, enquanto fracasso da religião, e enquanto fracasso da humanidade. A questão aqui é a necessidade de um Deus, já que seu conceito se torna “inconcebível” após a Segunda Guerra Mundial.

Quando Nietzche conclama a morte de Deus ele obviamente (e se faz necessário frisar esta situação) não faz menção a uma morte física de Deus, mas sim a sua morte enquanto conceito transcendental e sua superação pelo Homem. Deus aqui é a manifestação ocidental de um Uno, que se consolida com a civilização judaico-cristã. Seria muita pretensão do autor do presente ensaio, e até mesmo de Nietzche e de Flusser, abordarem a questão divina na civilização oriental, da qual nenhum dos três possui não apenas repertório, mas também vivência.

O problema na leitura da notória frase – Deus está morto - reporta a um conceito elaborado por Flusser, o conceito de programa. Flusser talvez nunca tenha pensado que, a partir de uma análise incisiva do comportamento e comunicação de sua época, estava elaborando conceitos que seriam realmente absorvidos por poucas pessoas (como por exemplo, os próprios programadores). Esta condição aparentemente óbvia beira a prepotência, mas é crucial tendo em vista o laconismo presente na grande maioria da população mundial. O programa, como previu Flusser, se tornou independente e “consome” homens para se expandir, como se o filme Matrix efetivamente funcionasse na vida “real”. O repertório do homem comum foi há tempos rebaixado, condenado a uma condição catártica que destarte prevê uma inércia intelectual cômoda. Essa inércia tão cômoda é vestígio de um sistema cristão de informação, um sistema em forma de pirâmide. Será que os filósofos e pensadores se deram conta somente dialogariam com eles próprios?

O sistema piramidal de comunicação humana, implantado pelo cristianismo, visa o não-dialogo, todas as respostas devem ser encontradas no vórtice divino. Todavia o atual sistema comunicativo é não-linear, em rede, e, portanto quebra com o vórtice, sem que haja um ponto de confluência único. Ora, pensando na construção de toda a civilização ocidental, baseada nos preceitos cristãos, outros valores caem por terra. Uma das grandes características do cristianismo é a culpa. A culpa determina todo um comportamento humano extremamente complexo. A culpa provém do pecado, de se fazer algo errado aos olhos de Deus, para tal ato a resposta divina é a punição. Essa punição por vezes é desproporcional, como por exemplo, a passagem “se seus olhos o levarem ao pecado arranque-os, é melhor ser cego que um pecador”, ou seja, o pecado do desejo o condenaria a cegueira durante o resto de sua vida. Essa culpa gera desconforto, o simples fato do ser humano constituir família é por sentir culpa de abandonar sua prole, o amor, numa análise extremamente cética é a transformação do afeto em culpa. Contudo o sistema de comunicação em rede se aproveita dos vestígios lineares para inibir a atividade intelectual do homem. É muito mais fácil perpetuar uma idéia, seja ela qual for, se seu receptor não possuir nenhum discernimento crítico.

Se para Flusser um dos motivos principais para a morte de Deus é Ele ser a imagem e semelhança do criador de Auschwitz, a culpa gerada e difundida no sistema cristão passa a ser questionada, e, portanto, o Homem poderia se “desvencilhar” da sensação de culpa por atos tão absurdos. Ou seja, não haveria mais critérios éticos nas atividades humanas. E também se faz necessário lembrar que Auschwitz foi concebida sob um discurso que pretendia uma amparação divina, uma vez que a raça ariana se considerava escolhida por Deus.

Por outro lado a semelhança entre Deus e Homem pode ser exacerbada. Inúmeras passagens bíblicas denotam certa perversão divina. Dois pontos amplamente debatidos são: O livro de Jó e a prova de fé de Abraão. Ambas as passagens tratam de uma prova de fé infligida por Deus a seus discípulos fiéis. Não cabe ao presente ensaio debater a intensidade das provações, entre outros pormenores, o que se questiona é: Qual o motivo que leva Deus a provar de forma tão cruel seus seguidores uma vez que ele (por ser onipresente, onisciente e onipotente) já saberia a conclusão dos fatos? A resposta comumente encontrada é que Deus o fez para mostrar aos homens a fé de seus seguidores e a recompensa pela mesma. Bem, se Deus faz questão de provar tal situação isso denota uma característica extremamente humana, o capricho. O capricho é uma característica atribuída aos homens, mas então pode ser considerada uma característica divina herdada pelos homens. É nessa relação não mais dialética entre características humanas e divinas que se encontra o espanto pelo caráter divino.

Agora o leitor pode estar se perguntando qual a ligação entre o divino e a igreja, entre o divino e a bíblia; bíblia e igreja não são invenções humanas? A cisão entre igreja, bíblia e Deus é um fato muito recente em termos históricos, e se fez justamente em função das atrocidades cometidas em nome de Deus por parte da igreja, e por conseqüência dessacralizando a bíblia. Essa concepção monoteísta só se firma com o cristianismo, que por sua vez se fundamenta pelos escritos presentes na bíblia, que acabam por gerar a igreja católica (a romana e posteriormente a ortodoxa). Mesmo com o protestantismo a concepção de Deus vinculada diretamente à igreja e bíblia não cessa; a verdade, o belo e o bom eram determinados pelas igrejas cristãs e fundamentados pela bíblia.

Outro ponto relevante se encontra no fato de que Igreja e Estado foram por muito tempo praticamente uma única instituição. A idéia de Estado laico só foi concebida com as repúblicas modernas. Com a queda das grandes monarquias (reinos, impérios, etc.), e, por conseguinte de governantes instituídos por Deus, que Estado e Igreja serão separados, e diversas guerras territoriais serão travadas. Guerras e genocídios fazem parte do comportamento humano por toda a sua existência, é só pensar em uma grande civilização que logo segue um enorme número de mortes em nome dela. O auge dessa característica auto-destrutiva humana se encontra na Segunda Guerra mundial. Perde-se a fé em Deus, por perder-se a fé no Homem. Perde-se a fé no conhecimento gerado pelo Homem. Se em algum ponto a ciência criada pelo Homem delimita divino e humano como territórios separados, mas não necessariamente em oposição, os fatos gerados pela aplicação da ciência em suas últimas conseqüências evocam a necessidade quase que irracional de um amparo divino. Então se tem que a existência de Deus antecede qualquer manifestação religiosa.

É justamente quando o conceito Deus não consegue mais conter a atividade e o comportamento humano, na igreja e fora dela, que se pensa em Deus independente da religião, e, também, se pensa na morte de Deus. Essa questão é de extrema importância, pois hoje é com extrema facilidade que Deus, religião e Igreja são vistos de forma dissociada, ao passo que toda a civilização ocidental foi construída sob os preceitos indissociáveis judaico-cristãos.

É a dissociação recente entre Deus e religião que garante sobrevida ao conceito Deus. Mais que qualquer pormenor levantado, a bíblia é um manual de conduta, e é isso que o Homem procura: regras determinadas, critérios, bom senso, para nortear suas atitudes. E, não obstante, o Homem encontra conforto na certeza de um Uno ao qual faz parte. É, por conseguinte, a força motriz para a crescente geração de novas religiões contemporâneas, cristãs ou não. Fica mais fácil ao Homem conceber que a humanidade falhou ao apreender Deus do que simplesmente eliminar o conceito divino em decorrência dos atos humanos. Fica mais fácil dizer-se que a bíblia não tem necessariamente mais validade uma vez que foi escrita por homens. É melhor tirar a responsabilidade de Deus e coloca-la sobre os ombros de pessoas que já morreram, e que, por conseguinte, não vão reclamar. Se Deus não faz mais parte de uma conjuntura violenta ele perde a carga negativa que lhe foi atribuída e, finalmente, se torna “livre”. A partir de então Deus se descola da religião, e da cultura humana mesmo tendo “criado” o Homem. É curioso que esse “descolamento” fora antecipado na própria bíblia, quando Jesus indaga “ó pai, porque me abandonaste?”.

O Homem esqueceu Auschwitz, por mais absurdo que isto pode parecer. As centenas de milhares de pessoas que foram mortas se tornaram dados para estatística. É só pensar que mesmo após Auschwitz o Homem foi capaz de destruir as Torres Gêmeas com todos os inocentes dentro (não sejamos ingênuos a ponto de achar que aquilo foi simplesmente um ato terrorista islâmico, portanto oriental somente). É impressionante como a violência faz parte do quotidiano atual, totalmente banalizada e acéptica. O entretenimento é capaz de gerar extremos catárticos violentos porno-feitichizados para todos os gostos; e novamente caímos na questão comunicativa: após coisas como bucake, snuff, filmes ultra-violentos, entre outras produções as quais não cabe ao autor julgar como boas ou más, mas que aos olhos da moral e bons costumes cristãs são condenáveis, onde está vértice Deus?

Na comunicação social em rede, torna-se ainda pior a questão da alienação já tão trabalhada durante o cristianismo. Tudo pode ser feito e tudo já está previsto. Sem um ponto de convergência único o Homem se perde com o livre arbítrio, portanto se reforça a necessidade da existência de Deus, agora não como vórtice de uma pirâmide comunicacional, mas sim como ponto de apoio humano confortável e irracional, alheio a todo o sistema, como se pertencesse à outra dimensão comunicativa. Este novo conceito de Deus é mais flexível e erudito, trazendo para si argumentos de novas correntes filosóficas e novas abordagens a fim de se tornar menos falho, mais acolhedor, e, ao mesmo tempo totalmente descompromissado. O relacionamento homossexual, a separação de casais, a violação do próprio corpo por motivos estéticos, entre outras coisas tão comuns e normais ao Homem, mas condenadas e deturpadas pela Igreja, passam a ser aceitas por Deus, uma vez que o conceito Deus se torna mutável e não segue necessariamente a bula bíblica. Reforça-se o fato de que o autor não julga as atividades humanas mencionadas, mas as coloca perante o possível julgamento histórico-cristão.

Essa nova concepção de Deus vai tomar como referência para a sua construção o conceito anterior mais próximo, o conceito cristão. Ele então flexibiliza e repercute questões positivas como o amor ao próximo e a vida após a morte e torna obscuro ou elimina questões negativas como a punição pelos pecados e o inferno. Se a violência humana é prova do da incapacidade de amor ao próximo, a culpa não é mais divina, mas sim humana, porque a semelhança entre Homem e Deus não existe como antes, tudo faz parte de um contexto que é preferivelmente inexplicável por preceito. Pode-se dizer que se criou um Deus pós-cristão, uma vez que ele se apropria de conceitos cristãos interessantes e se expande para outros horizontes os quais o conceito anterior de Deus não chegava, da mesma forma que perde toda a responsabilidade pelo que foi atribuído ao conceito de Deus anterior.

Chega-se à conclusão da intrínseca condição humana em se apoiar na existência de um ser superior para fundamentar a sua própria existência. Sua existência é independente de qualquer atrocidade que possa ser feita (e muitas vezes fundamentada pela necessidade de afastamento dessas atrocidades), por maior desenvolvimento que o conhecimento humano possa ter alcançado, tendo como maior expoente até então a idéia cristã de Deus; que ainda se encontra em atividade, se dissipando na cultura contemporânea. Numa relação arquetípica de herói e anti-herói, ego e alter-ego, se o Homem matar Deus ele mata a si próprio, pois perde seu interlocutor, perde sua referência, sua imagem espelhada tão narcisista. É cômodo Deus estar vivo, e, portanto Ele está.

domingo, 26 de setembro de 2010

SOLTA OS URUBU, MAS NUM PRENDE OS PIXADOR!

Bem, desde 2008 estou elaborando minha dissertação sobre Arte de Rua, e pelo visto os fatos querem ou me ajudar ou me atrapalhar.

Cidade Limpa, Ataque à Belas Artes, Ataque à 28ª Bienal, e agora essa proeza:
Ataque à 29ª Bienal, bem no dia de abertura ao público.

Isso tudo esquenta a discussão, e me ajuda a discorrer sobre uma série de questões.
Mas gente, eu sou um só! Não vai dar pra falar de tudo na dissertação!

O fato é: Em 2008 pixaram a bienal, achei louvável. Depois convidaram os pixadores pra participarem da 29ª, eles participam, do jeito deles.

Se o pixador não participar da bienal simplesmente intervindo livremente sem qualquer aviso a pixação perde o seu sentido. Ainda nem deu tempo de ver o pavilhão dedicado à pichação, mas se é oficial já fica difícil de engolir.

Com todo o respeito ao Nuno Ramos e seu trabalho (o cara é bom, não vou entrar nesse mérito).
Estava subentendido que os urubus eram de cativeiro? Todo o espectador conseguiria ler isso?
Acredito que não, mas de qualquer forma, gera controvérsia.

A Fundação comunicou que "possui todas as licenças exigidas pelos órgãos de preservação ambiental para o uso desses animais".

Onde começa o direito do Homem e onde termina o do Urubu?
Não sei, e o espectador, sabe?
Onde começa o direito de um artista e termina o direito de outro artista?
Também não há resposta simples.

Pixaram então "LIBERTE OS URUBU". Sim, "URUBU" NO SINGULAR.
E o Nuno ficou bravo, e eu não entendi.

Arte Contemporânea se esqueceu?
E todos os problemas que ela acarreta?!?! Ele tinha que estar preparado... ou não?

E desta vez os pixadores foram muuuuuuuuuito inteligentes, pegaram um ponto que cativou o público, bichinhos indefesos.

E a galera saiu gritando a favor dos urubu.

"Liberdade aos Urubus"

Os pixadores empatam a partida.

Pixo 1 x 1 Arte

Com cagada da zaga artística, que teima que pixo e arte são times diferentes.
Deixou o atacante pixador livre pra marcar.
E o público foi à loucura.


Bruno Corrente é mestrando em Artes Visuais, e tá muito empolgado.


P.s.: Tenho que reescrever o post, escrevi isso tudo duma vez quase sem pensar.

quinta-feira, 4 de março de 2010

altruísmo

decidi dividir com vocês, reles mortais, um pouco da minha "arte".
acessem: http://www.flickr.com/photos/brunocorrente/sets/

entre outras imagens temos algumas das minhas prediletas:









terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

contraste

assista:





pois é, qual a SUA opinião?

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

trajetos

Domingo, 8h46min34sec. Acordo com a voz da minha avó, achando que ainda estava sonhando. Não, não estava. Nem era um pesadelo, tenho que trabalhar. É, isso é um pesadelo. Acordar antes do meio dia, num domingo, pra trabalhar, dignifica qualquer cidadão ao paraíso, com direito as 72 virgens que são prometidas no mundo islâmico, apesar de toda a contradição de se trabalhar no dia “sagrado”. Contudo, isso transforma sua vida no inferno, e é da vida antes da morte que realmente interessa para as pessoas minimamente sensatas.

Ao realmente abrir os olhos vejo o retrato do Ugo Tognazzi que tomou minha madrugada na escrivaninha, ainda com toda a família B ao lado, o vovô 6B, mamãe órfã 4B e netinhos 2B e HB. O desenho ficou realmente bom, e, não sou nenhum pouco modesto. Ugo Tognazzi em vida fora ator, e um dos seus melhores filmes foi o Gaiola das Loucas. Você provavelmente deve ter assistido com o Robin Williams, não que eu não goste do Robin, mas há um abismo entre os dois, e o Ugo fica do lado positivo da expressão “abismo”, usada para separar duas coisas, acho que você sabe o que quero dizer. Somente então: banheiro.

Ah! Mijar! Mijar ao acordar é uma daquelas sensações íntimas que dependendo do seu estado de espírito se igualam ao nirvana, não que eu tenha alcançado o tal nirvana, mas acho que deve ser algo como mijar pela manhã, ou cagar fumando. Viro-me e continuo nas tarefas matinais de um cidadão ocidental.

Escutar os passarinhos cantando ao escovar os dentes é deprimente. Em geral quando acordo os passarinhos estão tirando uma soneca após o almoço, e só se escuta o barulho dos carros e trólebus típicos da avenida.

Dentes escovados: café da manhã. Uma atividade que me enoja, não pela filosofia de vagabundo que adoto, é que realmente não consigo ingerir nada ao acordar, principalmente quando são 9h01min28sec recém completados de um domingo ensolarado. Meu estomago se fecha, como uma ostra ao ser oprimida. Engulo esse momento guela abaixo, não exatamente o momento, não deve ser possível engolir tempo, mas sim o café da manhã, e este leva tempo.

Tendo que me vestir pego a roupa esticada na cadeira, a mesma de ontem a noite. Você deve me achar porco, sujo, nojento, e todos esses adjetivos que se referem ao oposto da limpeza, mas acho uma puta sacanagem ter que lavar uma muda a mais de roupa em função de uma ida à esquina para tomar uma cerveja com um amigo, tomando apenas 1h de suor. Portanto, reutilizei toda a vestimenta, e antes que me pergunte, sim, também a cueca.

Vestido, escovo os dentes novamente. Gosto de escovar os dentes, gosto do som da escova esfregando por dentro da boca, faço movimentos ritmados, como se estivesse tocando um instrumento qualquer de percussão. Lavo o rosto, e enxergo no espelho um tricerátops com sono.

Na porta, beijo na testa da avó. Escadas: degrau, degrau, degrau, 2º andar, degrau, degrau, degrau, 1º andar, degrau, degrau, degrau, térreo, porta, portão. Tchauzinho para a janela, atravessar rua. Ponto de ônibus, banco.

Ligo então o mp3 player, no modo aleatório. É impressionante como o modo aleatório tende a não ter nada de aleatório. 3 músicas seguidas do In Flames, com direito a repeteco de Sleeples Again (seria isso uma piada do destino? Não, não existem essas coisas). Gosto de In flames, mas gosto de imprevisibilidade musical. Aperto 19 vezes o botão next até cair numa música mais com a cara de “manhã maldita de domingo em que trabalho”, Deftones – Hole In The Earth. Refrão aéreo, com estrofes aéreas, eu estava aéreo.

Ônibus? Não, eles não existem, não num domingo de manhã. Existem pais de família levando a maldita família pra passear nos seus carros novo de pais de família, enquanto seus filhos fazem aquela cara de “estou com sono pois estava escondido jogando tíbia de madrugada”. Repare nas roupas desses pais e mães de família. Eles conseguem ter um espaço no guarda roupa única e exclusivamente para “roupas de passeios indesejados nos domingos pela manhã”. Tênis para corrida de alguma marca “sou classe média e quero aparecer”, shorts beje sempre no lugar certo da cintura (o que é totalmente desconfortável), camisas polo azul celeste ou laranja com um botão abotoado apenas, bonés cafona com velcro para fechar e óculos escuros de grau. Para a esposa existe a variação regata branca com top aparecendo por baixo.

Até que finalmente, depois de intermináveis 13 min de espera, um chifrudinho (é assim que chamo carinhosamente o ônibus elétrico 3360) aponta no horizonte. Faço sinal e ele para (incrível!). Porta, degrau, degrau, catraca, banco na janelinha. A vantagem do transporte público no domingo matinal é que sempre tem um bom lugar a sua espera. O máximo que pode acontecer é você encontrar algum conhecido teu voltando de algum evento social que levou a madrugada toda, envolvendo bebedeira, mulheres e diversão, o que te lembra que a sua vida social não faz parte do top 100 do seu bairro, sequer da sua rua.

No trajeto lembro que estava sem cigarros. Existe um bar ao lado do terminal onde desço, mas coicidentemente, no dia anterior havia comprado um maço lá, com a mesma roupa que estava usando agora. Será que o dono do buteco vai me reconhecer? Não sou um tipo assim comum... Ele deve pensar que sou porco, mas ele é dono de um buteco!!! O que fazer?! Depois de muito filosofar sobre o que pessoas completamente desimportantes pensariam a meu respeito decido descer um ponto antes de onde constumo, apenas para comprar cigarros em outro buteco, que assim como o anterior, não preza pela higiene e simpatia com seus consumidores. Em função disso tive que caminhar 2 quadras a mais, o que num domingo de manhã exige um puta esforço.

Cigarros comprados, ascendo o primeiro cigarro do dia. O primeiro cigarro do dia, você que é fumante deve me entender, é horrível, realmente horrível. Parece que ele abaixa sua pressão arterial, te deixa mal mesmo, tira seu estômago do lugar e o coloca de volta com a maior má vontade. Mas você tem uma dívida com ele, ele é o primeiro cigarro do dia, abre as portas pra todos os outros cigarros extremamente importantes, tais como o do depois do almoço, o de encontrar o chefe, o de quando o tempo não passa, entre tantos cigarros que servem de muleta para suportar um dia que teima em ser desnecessariamente cansativo. Na metade do cigarro percebo que o segundo ônibus que pego está se aproximando. Não jogo o cigarro fora de forma alguma, deixo o ônibus passar, senão o carma do primeiro cigarro do dia não se termina, e é postergado pro segundo cigarro do dia, isso me consumiu mais longos 27min de espera, rendendo o espaço pro segundo e terceiro cigarros do dia.

27 minutos passados, aponta a lotação. Porta, catraca, degrau, degrau, janelinha. O trajeto é pequeno, com bom humor pode ser feito a pé, o que você deve supor que, num domingo de manhã, não é uma situação comum. No próximo ponto sobe um daqueles adoráveis idosos, que como toda a pessoa experiente que viveu uma vida cheia de alegrias acha que não precisa acumular mais nenhum tipo de conhecimento e simplesmente não lida com aparatos eletro-eletrônicos feitos após 1978, o que dificulta certamente o simples ato de passar o cartão para embarque. O adorável senhor de 143 anos, bafo de múmia, e brilhantina nos cabelos irrita profundamente o motorista pois não consegue encostar seu cartão onde está escrito em caixa alta e cor vermelha ENCOSTE SEU CARTÂO AQUI PORRA!, não tenho certeza se o porra estava lá, mas faria sentido em ocasiões como esta. O fato animou a viagem, mas não tornou meu dia efetivamente mais alegre, pois era domingo de manhã e eu estava a caminho do trabalho.

Chego finalmente ao meu destino, meia quadra do meu trabalho, apenas uma atravessada de rua e eu estaria lá, bate uma dúvida e uma baita vontade de dar meia-volta e ir dormir, ou então me jogar em algum carro e forjar um acidente (o seguro cobre acidentes durante os trajetos de ida e volta do trabalho) contudo, eu não tenho tanta coragem assim. Chego, suspiro, fumo outro cigarro e passo o cartão. Em 8h serei livre novamente.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

domingo, 9 de agosto de 2009

auto-imune


acho que a maior recorrência na arte é o auto-retrato. mais que jesus cristo, essa é a temática que mais os artistas usam. agora, se enxergar e representar é uma das tarefas mais difíceis pra qualquer artista. despir-se da sua auto-imagem construída? representar fielmente o que é visto? representar fielmente o que é sentido? representar o que é percebido? auto retratar-se é uma atividade reflexiva e tortuosa.
...mas necessária.


bruno corrente com cara de boi.